Em algum momento de sua existência na Terra, ou mesmo em vários momentos diferentes ao longo de sua vida, qualquer pessoa pode passar pelo que no Espiritualismo se denomina de crise de transformação.

O que é uma crise de transformação?
Uma crise de transformação ocorre quando toda nossa estabilidade material começa a ruir; quando perdemos nossas principais referências na vida; quando perdemos tudo de material; quando nossas principais crenças são postas em cheque; quando tudo parece desmoronar, quando sentimos um imenso vazio e caímos em fortes depressões; quando perdemos a esperança de tudo e nada mais parece nos restar.

Toda crise de transformação marca uma ruptura entre o antigo e o novo que começa a surgir.
É quando nossa velha configuração de vida começa a se quebrar, a se romper…
Perdemos nossa estabilidade, nossa segurança, nosso chão, e tudo começa a ser sacudido, a se movimentar.
A poeira começa a se espalhar, nossas emoções começam a vir à tona e tudo começa a se modificar.
É um ponto de mutação em nossa vida.

O ápice de uma crise de transformação é o momento em que nosso ego colapsa com as diversas perdas que ocorrem, vem uma crise em nossa identidade, em nosso sentido de mundo, sentido de eu e tudo parece desmoronar dentro de nós. Nesse momento ocorre algo semelhante a uma “morte” de nós mesmos.
É como se o velho eu não servisse mais e começa a ser descartado…
Assim, um novo ser começa a brotar dentro de nós.

Essa morte, obviamente, não marca um fim absoluto, como poderíamos supor, – pois não há fim absoluto de coisa alguma no cosmos, mas nos abre para o começo de uma nova vida, renascida e renovada.
O ser humano quase sempre acredita que o fim do seu estado atual representa seu fim total e completo.
Mas os seres estão sempre mudando de um estado a outro, de uma condição a outra e não há aquilo que acreditamos ser um fim, pois como já dissemos em outra oportunidades, todo fim é sempre um novo começo.

Toda crise de transformação representa uma mudança, uma morte e um renascimento, mas ao mesmo tempo é um chamado.
É um chamado da vida, de Deus, da inteligência universal, como preferirmos nomear.
É certo que a vida nos faz um chamado para irmos do inferior ao superior, do menor para o maior, do baixo para o alto, da estagnação para a atividade, um chamado para o fim do conformismo e para o início da transformação.
Não poderia ser diferente, pois tudo se transforma e nada pode permanecer estático, conformado, acomodado, preso ou limitado para sempre.

Toda crise precede um novo despertar, novas possibilidades, uma abertura de caminhos, uma mudança de perspectiva, uma alteração de valores e crenças básicas arraigadas.
Promove uma reconfiguração de nossa existência e de nossa condição mental e emocional, enfim, faz surgir uma nova visão da realidade.

Os desencadeadores da crise de transformação podem ser muitos: uma doença, a perda de um ente querido, a perda do emprego, muitas dívidas às vezes impagáveis, um transtorno mental, o mergulho em condições de miséria, o término de um relacionamento, uma forte depressão, angústia, ansiedade generalizada, isso pode vir junto a certos transtornos como despersonalização e desrealização.

Qualquer coisa em nossa vida pode ser motivo para uma crise de transformação. nesse momento, o ego entra em colapso e não conseguimos mais sentir a estabilidade que antes era presente.
Tudo parece se romper, quebrar, se desestruturar.
Nossas referências parecem se perder e tudo parece vago, incerto, quebradiço, líquido, vazio, sem sentido, escuro, angustiante, sem vida, seco, frio, etc.

Um exemplo de relato Bíblico sobre uma crise de transformação ocorreu com Jó no Livro de Jó.
Jó era um dos homens mais ricos do oriente, tinha tudo o que gostava e amava.
Sua vida era perfeita.
Em dado momento, Deus resolveu testar a fé de Jó e retirou tudo o que ele tinha.
Retirou sua família, sua riqueza, sua saúde, etc.

Nesse momento, Jó começou a passar por uma crise de transformação, onde foi severamente testado, para ver como se comportava diante das adversidades e perdas.
A todo momento milhões de pessoas vivenciam uma crise de transformação semelhante a de Jó.
Elas veem tudo lhes sendo retirado, coisas relacionadas ao material, ao emocional e ao nível mental.
Quando os níveis material, emocional e mental entram em colapso, isso nos obriga a ir além deles, ascendendo ao espiritual, que é onde reside eternamente nosso verdadeiro ser cósmico.

Saindo da tradição cristã, aquele que lê o relato da vida de Siddharta Gautama, o Buda, poderá observar que se trata de uma existência repleta de crises de transformação, de provas, de enfrentamentos, até que siddharta vence todos os obstáculos e se torna um Buda, um iluminado, aquele que enxerga a verdade tal como ela é.
Sem a crise não há a passagem…e sem a passagem não há evolução, não há ascensão, não há quebra da ilusão e mergulho na verdade.

Nas sociedades tribais existem os chamados ritos de passagem, que são rituais de passagem da infância para a vida adulta.
Esse ritual de passagem é muitas vezes uma prova, uma crise de transformação que o jovem precisa atravessar para poder alcançar a vida adulta e estar preparado para todas as suas exigências.
Infelizmente, ao contrário de outras tradições e culturas antigas, nossa sociedade ocidental materialista, ao invés de estimular a boa vivência de uma crise de transformação, faz o contrário: nos estimula a negar a transformação e suas implicações, a negar um amadurecimento, a negar todas as crises e sofrimentos, e simplesmente se atirar no mundo consumista e vazio da mídia, do ego e da busca pelo dinheiro como solução para tudo.

Podemos dizer que nossa sociedade, ao contrário de nos ajudar a seguir o fluxo natural das transformações, nos estimula a fugir deles, a fingir que nada disso existe, a extirpa-los e a cair nos subterfúgio vazio de uma conformidade ao consumismo exacerbado que existe hoje.

A maioria das pessoas fazem uma profunda resistência a qualquer tipo de transformações profundas em suas vidas, pois o ser humano teme aquilo que desconhece.
O feto está confortável no útero de sua mãe.
Ele vai sendo alimentado pela sua genitora e possui toda a estabilidade e segurança lá dentro.
Mas chega um momento em que ele deve deixar essa estabilidade e sair para a vida.
O nascimento não é fácil, pois é sempre traumático.

Ele deve atravessar um túnel escuro para alcançar a luz da sala de hospital do mundo externo.
O mesmo ocorre com os espíritos que sofrem as transformações no mundo material.
Eles perdem sua estabilidade, sua segurança, sua acomodação e são colocados numa condição de insegurança, onde seu chão, sua base é retirada, pois somente assim eles aprenderão a ir além.
E o que acontece quando se resiste a essa transformação?
A resistência à crise de transformação só atrasa nosso caminho e nos gera sofrimento.

No momento em que a vida nos faz esse chamado, nossa vida nunca mais será a mesma.
Há muitas pessoas que se lamentam por isso e desejam que sua vida retorne ao mesmo formato que era antes, seja em sua infância, seja em sua adolescência, ou até mesmo na fase adulta.
Mas é certo que não há como voltar atrás, pois uma vez que é detonada a crise de transformação, não há mais retorno possível…o único caminho ou direção a se tomar é para frente e para o alto.
Nunca mais seremos os mesmos.

Quanto mais a pessoa tentar resistir ao fluxo das transformações, mais ela vai sofrer.
Quanto mais ela tentar reaver a vida tal como era antes, ou ficar sonhando em retomar a estabilidade, mais o sofrimento baterá em sua porta.
Como disse Einstein, uma mente que se dilatou nunca mais retorna ao seu tamanho normal.
Não há como voltar atrás.
Quanto mais brigamos com a situação desejando que nada mude, mais a vida vai te empurrar para as mudanças que você precisa fazer em você mesmo.

Ficar pedindo a Deus que nos ajude a reaver o antigo formato de nossa vida é o mesmo que pedir a Deus que interrompa nossa transformação: seria como o feto pedir para regressar ao útero materno, ou como o pássaro pedir um retorno ao seu antigo ninho pois ele não quer começar a voar, ou ainda como o jovem que deseja regressar à infância, ou como o adulto que deseja evitar os conflitos da nova fase e retomar as inconsequências da juventude.
E quando atingimos a senescência, homens e mulheres são incentivados pela nossa cultura e mídia a permanecer na fase adulta ou mesmo retomar os trejeitos da juventude.
Inclusive, para se verificar a decadência de uma sociedade, devemos observar o valor que esta dá aos anciãos.

Mas por que tudo isso tem que ocorrer?
A existência universal possui muitas fases de transformação.
A vida como a conhecemos não é a vida total, a vida infinita.
O que experimentamos da vida é apenas uma ínfima parte do todo.
O homem precisa atravessar inúmeros degraus em sua ascensão.
O ser humano passa da infância a adolescência, da adolescência a fase adulta e desta para a velhice.
O ano escolar passa do ensino fundamental ou ensino médio, do ensino médio à faculdade, da faculdade ao mercado de trabalho.

Tudo em nossa vida se organiza em fases, em ciclos que tem seu início, meio e fim.
O próprio envelhecimento é uma crise, é sempre um deixar o antigo para dar lugar ao novo.
Mas o novo nem sempre é o antigo numa outra forma, o novo pode ser algo bem diferente do que estamos acostumados. Toda a natureza funciona assim e a evolução de nossa alma não poderia ser diferente.
Não podemos permanecer parados num mesmo nível para sempre.
É preciso continuar caminhando, é preciso seguir em frente, acompanhando a marcha do progresso espiritual.

Por isso, como dissemos, quando não desejamos ascender, a vida vem tirar o nosso chão, a nossa base, para que sem a estabilidade costumeira, nós aprendamos a voar com as asas do espírito.
É como se estivéssemos subindo uma escada e os degraus mais baixos começam a se quebrar.
Precisamos rapidamente passar aos degraus mais altos para evitar a queda.
No cosmos, o único caminho possível é a subida, ou, por outro lado, a estagnação no sofrimento.

Algumas pessoas podem ficar chateadas e revoltadas porque elas mesmas estão vivendo uma crise de transformação, mas outras pessoas do seu círculo parecem estar sempre bem no mundo, com estabilidade, dinheiro e sem enfrentar grandes problemas.
No entanto, é certo que todos vão vivenciar as crises de transformação, pois elas são inexoráveis e fazem parte da marcha do progresso de nossa alma.

Seria como imaginar que um aluno pode passar de ano sem realizar algum tipo de exame ou prova que demonstre sua capacidade para ser aprovado no próximo ano letivo.
Não…as provas existem para nosso espírito… e são elas que nos impulsionam a seguir ao próximo nível de desenvolvimento espiritual.

Não importa quanto tempo demore, todos, absolutamente todos serão obrigados a viver uma ou mais crises de transformação em suas vidas.
Se a pessoa não vive a crise na vida atual, terá que vive-la nas próximas vidas.
Não há como escapar disso.

Não devemos encarar a crise de transformação como sendo algo ruim, mau, perverso, que vem para nos destruir.
Ao contrário, ela vem nos libertar.
Só não se liberta quem fica preso ao comodismo, a estagnação.
As transformações são como ter que atravessar um rio…as correntes do rio nos empurram para longe e nos afastam das margens e podem nos fazer bater em pedras e nos machucar.

Uma pessoa pode olhar para o rio e dizer: “como você é mau, está me machucando, está impedindo meu caminho, está prejudicando meu movimento, está impedindo que eu fique estável nessa travessia”.
Mas o rio não é algo ruim em si mesmo.
Ele simplesmente é o que é.
Essa é a sua natureza, que é a de fluir suas águas numa determinada direção.

Assim também são as provas que um aluno faz.
A prova é algo ruim em si mesma?
Não…a prova nada mais é do que um conjunto de perguntas, questões, que devem ser respondidas.
O aluno que faz a prova e não sabe as respostas, pode sentir que a prova é ruim, má, negativa.
O fato de não saber responder as questões da prova pode leva-lo ao sofrimento.

Mas na verdade não é a prova que é má…mas sim nossa incapacidade de responder suas questões.
O mesmo ocorre com a crise de transformação.
Ela não é má, ruim, perversa…é apenas a manifestação do fluxo da vida nos empurrando para a outra margem, tal como o rio nos empurra para uma direção.

É ainda como os ventos que nos levam para uma direção quando nosso desejo gostaria de ir a outra direção.
Esse contraste entre desejo de se permanecer parado e o empurrão que a vida nos dá para frente é o que cria o conflito que gera o sofrimento.
As pessoas que passam por uma crise de transformação vão da ilusão para algo mais real, mais verdadeiro e é justamente essa a função da crise: nos transportar do limite para algo além do limite.

A quebra de limites e a entrada numa consciência mais ampla, mais verdadeira, é o verdadeiro objetivo da crise de transformação.
Por exemplo, temos um relacionamento que cria uma grande ilusão em nossa vida.
Esse relacionamento, obviamente, vai terminar, pois se o relacionamento cria uma ilusão, e toda ilusão precisa ser rompida, o relacionamento, que é parte da ilusão, precisa ter um fim.
Se acreditamos numa ideia falsa, numa crença sem base, numa teoria sem fundamento, isso se constitui como uma ilusão em nossa vida.

Por esse motivo, essa ideia, crença ou teoria deverá ser questionada em algum momento pela realidade; ela será minada em seus fundamentos até que possamos enxergar além dela, compreendendo sua insuficiência e podendo, finalmente, soltar-nos da ilusão que ela representava em nossa vida.
A descoberta dos limites dessa ideia, crença ou teoria pode ser traumática para muitos, pois estávamos acostumados a pensar naquela ideia como verdadeira, como real…e ela era como um apoio em nossas vidas.

Mas quando seus limites se tornam evidentes e não há mais como nega-los, rompemos essa ilusão – e uma nova visão das coisas se abre – desvelando novos horizontes.
Assim, toda crise de transformação é um rompimento de limites que criava uma ilusão em nossa vida.
Por isso dissemos que as crises são as destruições das ilusões…e essa destruição força a transformação que nos conduzirá além dos limites antes estabelecidos em nossa mente.

Assim…vamos da ilusão ao real, da ignorância à sabedoria, do profano ao sagrado, da fragmentação à unidade, do caos ao cosmos.
Como disse Jesus: “Tudo o que está oculto virá a ser revelado”.
E também: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Nossa sociedade sempre busca afastar o sofrimento e fingir que ele não existe.
O ideal seria permitir que as pessoas vivam seu sofrimento, seu luto, sua dor, suas carências, ao invés de criar uma série de formas de preenchimentos ilusórios que nos distanciam de nós mesmos.
O sofrimento e as crises têm muito a nos ensinar…e quando não os vivemos, ou simplesmente procuramos esquece-los, ou fingimos que eles não existem, ou buscamos subterfúgios quando tudo aperta, não aprendemos com eles as profundas verdades sobre nós mesmos.

Quando refletimos sobre a natureza das crises de transformação percebemos que elas revelam a própria natureza do universo, do cosmos…
Não poderia ser diferente, pois tudo no cosmos muda, tudo se transforma, nada que é agora será para sempre.
A única coisa que não muda é a própria mudança.

A evolução das espécies se processou da ameba a um organismo muito mais complexo e inteligente, que é o ser humano. O mesmo deve ocorrer com nossa alma, que vai dos patamares mais primitivos até alcançar os planos superiores do ser.
Vamos do ser humanizado ao ser espiritualizado, do átomo ao arcanjo, do finito ao infinito, do tempo para a eternidade, da escuridão para a luz, da ameba ao espírito purificado, da poça no chão a inesgotável fonte da vida.

(Autor: Hugo Lapa)

Grande beijo no coração
Bell-Taróloga