O maior estudo científico já realizado sobre “experiências de quase morte” (EQM) concluiu que a consciência de uma pessoa continua existindo mesmo depois que o coração e o cérebro param de funcionar.

By Jefferson Allan

Conduzida pela Universidade de Southampton, a pesquisa começou em 2008 e envolveu mais de 2.000 vítimas de ataques cardíacos em 15 hospitais, nos EUA, no Reino Unido e na Áustria.

Entre os pacientes que sobreviveram ao infarto, cerca de 40% descreveram a sensação de consciência antes de terem sido ressuscitados pelos médicos, período em que foram declarados clinicamente mortos.

Entre esses, 46% conseguiram lembrar o que sentiram ou viram.
Apenas 2% conseguiram relatar com precisão o que aconteceu enquanto estavam mortos.
Alguns dizem ter ouvido o barulho de máquinas utilizadas nos procedimentos e a conversa dos médicos.

Um dos “ressuscitados” conseguiu relatar exatamente o que aconteceu após sua morte clínica: ao contar o que viu “após morrer”, o homem de 57 anos descreveu com precisão a periodicidade dos bipes das máquinas do hospital e toda a sequência dos acontecimentos em um período de três minutos depois de sua morte.

“Nós sabemos que o cérebro não pode funcionar quando o coração para de bater.
Mas nesse caso, a consciência parece ter continuado por até três minutos enquanto o coração não batia, apesar de o cérebro tipicamente desligar após um período de 20 a 30 segundos depois de o coração parar”, disse o Dr. Sam Parnia, que liderou o estudo, ao Daily Telegraph.

Muitas vezes esse tipo de memória está associada a alucinações ou ilusões.
Mas, segundo Parnia, a precisão de alguns relatos indica que, embora não se possa ter certeza sobre a autenticidade de todos os depoimentos, é necessário prosseguir com esse tipo de pesquisa sem preconceito.

“Estimativas sugerem que milhões de pessoas tiveram experiências vívidas em relação à morte, mas a evidência científica disso sempre foi ambígua, na melhor das hipóteses.
Muitas pessoas assumem que essas experiências são ilusões, mas elas parecem corresponder ao que de fato aconteceu.”

Consciência: uma visão espiritualista
A consciência sempre foi o buraco negro da ciência.
A despeito de todos os progressos tecnológicos da nossa sociedade, até hoje os cientistas queimam os neurônios pra entender o que é de fato consciência, onde ela se origina e onde termina, se é que um dia ela termina.

Guiados pela visão materialista/newtoniana e influenciados pelo paradigma de Descartes que separou com uma espada o mundo espiritual da matéria, durante muito tempo, os cientistas consideraram a consciência como uma “anomalia”, enquanto outros viam a consciência como um mero produto do funcionamento cerebral.

Muitas religiões e tradições espiritualistas, por suas vez, afirmam que a consciência é o componente fundamental da vida e da realidade, como a conhecemos e a moldamos. Eu, particularmente, gosto muito da visão de Ken O’Donnel sobre o tema.

O diretor da Organização Brahma Kumaris afirma que a consciência é, essencialmente, a percepção que a alma tem da sua própria existência.
“É o que está por trás do pensamento ‘eu existo’ ou ‘eu sou’.
Ele explica que normalmente, esta afirmação sempre vem acompanhada de alguma coisa, ou alguém, que pode ser chamado de autoidentidade.

“Como o que sinto que sou geralmente não permanece estável, o estado de consciência está sempre oscilando.
Num momento posso ter a consciência e que ‘sou um homem’ ou ‘sou uma mulher’ e, no próximo ‘sou um engenheiro’.
Num nível mais profundo, posso ter consciência de que ‘eu sou uma alma, um filho de Deus’”.

De acordo com o O’Donnel, a consciência é o trampolim de pensamentos, decisões e ações.
“Em outras palavras, a alma reage às circunstâncias externas de acordo com tudo o que ela sente ser naquele momento específico.
Por exemplo, um cirurgião é capaz de fazer uma cirurgia quando existe a consciência de ser um cirurgião.

Essa mesma consciência destrava ou dá a alma acesso a toda informação e experiência relacionadas a ser um cirurgião”, afirma.
Dentro desta linha de pensamento, O’Donnel é categórico ao afirmar que o estado consciência de uma pessoa afeta seu estado mental, sua atitude, sua visão de mundo e todas as situações relacionadas a esta pessoa.
“Se quero transformar todas as outras coisas, primeiro tenho de mudar meu estado de consciência”, alerta.

O problema é que a maioria das pessoas vive num estado de “consciência do corpo”, ou seja, têm uma visão extremamente limitada sobre quem são, sobre sua missão e, presas neste estado de ilusão sustentado pelo ego em torno da matéria, permanecem escravas de vícios, hábitos e atitudes do passado, sem acesso às chaves para a evolução espiritual, onde reside a liberdade da “consciência da alma”.

A boa notícia é que atualmente há uma corrente de cientistas que, desafiando o modelo acadêmico tradicional (e colando em risco o prestígio e suas carreiras), propõem que a consciência deve ser estudada com uma nova estrutura da ciência, por se tratar de um processo fundamental na natureza, assim como acontece com a luz ou a eletricidade.

“Em vez de partir do princípio e que a consciência emana do mundo material, como faz a maioria dos cientistas, precisamos considerar uma visão alternativa, proposta por muitas tradições metafísicas e espirituais, segundo a qual a consciência é considerada um componente fundamental da realidade – tão ou talvez até mais fundamental que o espaço, o tempo e a matéria”, defende o cientista Peter Russell no livro “Quem somos nós?”.

Outro ponto disseminado pelas tradições espirituais é a de que a consciência de cada indivíduo, a minha, a sua, a de todos nós, é parte de um campo unificado maior, ao qual temos acesso em alguns momentos, por meio da meditação, transe ou da iluminação, o despertar espiritual.

Com base nesse entendimento e também levando em consideração os resultados do estudo do Dr. Sam Parnia, torna-se evidente que a consciência não é um produto criado pelo cérebro, mas que a consciência é limitada pelo cérebro.

Vida depois da Vida
Muitas pessoas que passam pela experiência de quase morte (EQM) relatam a mesma sensação: de estar consciente mesmo estando fora do corpo, atravessar um túnel luminoso, encontrar seres luminosos e vivenciar uma sensação indescritível de paz.
A veracidade dos relatos é questionada pelos céticos, que atribuem tudo isso a ilusões e delírios causados pela falta de oxigenação do cérebro.

O primeiro pesquisador a se debruçar sobre o assunto foi o médico americano Raymond Moody Jr., autor do livro “A Vida Depois da Vida”, publicado 30 anos atrás.
Após catalogar 150 casos de EQM, o médico chegou a conclusões de forte inclinação espiritualista.
A partir daí, empolgados com o sucesso do livro, outros pesquisadores resolveram enfrentar o preconceito dos acadêmicos e passaram a estudar o fenômeno.

Em 1998, Lars Grael velejava em Vitória, ES, quando foi atropelado por uma lancha, perdeu uma perna e muito sangue.
Seu coração parou de bater.
Lars teve uma experiência de quase-morte.
“É uma coisa muito difícil de descrever”, disse à Superinteressante.
O médico José Carlos Ramos de Oliveira, outro sobrevivente de parada cardíaca, endossa Lars: “só quem passou por isso sabe do que estou falando”.

“Indescritível” é o adjetivo que mais aparece nos relatos de EQMs.
Ao que parece, a comunicação flui sem linguagem e os sentidos não atuam do jeito regular.
Apesar da dificuldade em verbalizar a experiência, os relatos de EQMs são muito mais claros e detalhados do que narrativas de sonhos ou de alucinações por drogas.
Os depoimentos são semelhantes, mas nunca iguais.

Algumas pessoas “flutuam” sobre o próprio corpo e observam o trabalho dos médicos; outras são guiadas por parentes mortos até uma luz brilhante.
O túnel, descrito por tantos, assume formas diversas.
“A maioria disse ter visto um túnel longo e escuro, mas outros o descreveram como um caleidoscópio ou um túnel de ladrilhos coloridos”, afirma o médico britânico Sam Parnia, da Universidade Cornell (EUA).

Um ponto em comum entre as pessoas que passam pela experiência de EQM é que todos voltam, de certa forma, transformados.
Passam a agir de forma mais solidária, desprendida de valores materiais.
E, contrário ao que se esperava, perdem o medo da morte.

Após acompanhar sobreviventes de paradas cardíacas por 14 anos, um estudo comandado pelo cardiologista Pim van Lommel, e publicado na revista médica inglesa The Lancet, concluiu que os participantes que recordavam de uma EQM apresentavam mais mudanças positivas de atitude em relação àqueles que não se lembravam do período em que estavam “mortos”.

Para os cientistas é complicado estudar o fenômeno, uma vez que a EQM não pode ser induzida em voluntários – por motivos óbvios -, dependendo sempre do relato de pacientes que foram reanimados por equipes médicas nas UTIs e centros cirúrgicos.

Apesar disso, uma pesquisa realizada pelo instituto Gallup dos EUA, em 1982, constatou que aproximadamente 8 milhões de pessoas, ou 4% da população americana, teriam experimentado sensações místicas de quase-morte.

Detalhe importante: entre essas pessoas havia gente de formação cultural e religiosa muito diversa, o que elimina a possibilidade de um fenômeno localizado em algum estrato social.

Embora a experiência extracorpórea relatada nas situações de EQM seja uma das partes mais intrigantes, ela pode ser reproduzida em outras situações, como no uso de drogas, na meditação, durante o sono e em momentos de estresse.

O neurologista Olaf Blanke, do Hospital Universitário de Genebra, descobriu uma região do cérebro chamada giro angular, que quando acionada eletricamente, causa justamente a sensação de estar fora do corpo.

O giro angular fica em uma extremidade do lobo parietal, setor cerebral responsável pela orientação espacial, que nos faz perceber onde termina o nosso corpo e o mundo externo começa.

Ao avaliar imagens tomográficas de monges budistas meditando, o neurocientista Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia (EUA), descobriu que a atividade no lobo parietal fica muito reduzida durante a prática meditativa.

“O cérebro fica sem escolha: ele sente que o ‘eu’ é infinito e intimamente entrelaçado a todos e a tudo”, diz no livro “Why God Won’t Go Away”.
Esse seria o gatilho cerebral para o sentimento de fazer parte de um corpo único que engloba todas as coisas e pensamentos – presente em visões místicas e nas experiências de quase-morte.

As tomografias mostraram que, enquanto o lobo parietal “dorme”, há uma atividade intensa no lobo temporal direito, que estaria relacionado à ocorrência de alucinações vívidas e induziria à religiosidade intensa.

Para quem os vivencia, os eventos das experiências de quase-morte parecem tão reais quanto o mundo físico.
No dilema entre a crença e a dúvida, os resultados da nova pesquisa do Dr. Sam Parnia abrem um caminho científico para o fato de que a vida, ou a consciência que pressupõe nossa existência, não depende do corpo para existir, e que continua ativa mesmo do outro lado do túnel.
Embora a maioria dos cientistas seja categoricamente relutante em admitir, a ciência começa a colher provas para a existência da alma.

(Fonte: Exame – BrasilPost – Superinteressante – Autor: Fernando Ferragino)

Grande beijo no coração
Bell-Taróloga

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