- Desde todas as épocas o homem acreditou, por intuição, que a vida futura seria feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal praticado neste mundo.

A ideia que ele faz, porém, dessa vida, está em relação com o seu desenvolvimento, senso moral e noções mais ou menos justas do bem e do mal.
As penas e recompensas são o reflexo dos instintos predominantes.
Os povos guerreiros fazem consistir a suprema felicidade nas honras conferidas à bravura; os caçadores, na abundância da caça; os sensuais, nas delícias da voluptuosidade.
Dominado pela matéria, o homem não pode compreender senão imperfeitamente a espiritualidade, imaginando para as penas e gozos futuros um quadro mais material que espiritual; afigura-se-lhe que deve comer e beber no outro mundo, porém, melhor que na Terra.
Mais tarde já se encontra nas crenças sobre a vida futura um misto de espiritualismo e materialismo: a beatitude contemplativa concorrendo com o inferno das torturas físicas.
2.Não podendo compreender senão o que vê, o homem primitivo naturalmente moldou o seu futuro pelo presente; para compreender outros tipos, além dos que tinha à vista, ser-lhe-ia preciso um desenvolvimento intelectual que só o tempo deveria completar.
Também o quadro por ele ideado sobre as penas futuras não é senão o reflexo dos males da humanidade, em mais vasta proporção, reunindo-lhe todas as torturas, suplícios e aflições que achou na Terra.*
Nos climas abrasadores imaginou um inferno de fogo, e nas regiões boreais um inferno de gelo.
Não estando ainda desenvolvido o sentido que mais tarde o levaria a compreender o mundo espiritual, não podia conceber senão penas materiais; e assim, com pequenas diferenças de forma, os infernos de todas as religiões se assemelham.
O inferno cristão imitado do inferno pagão
3.O inferno pagão, descrito e dramatizado pelos poetas, foi o modelo mais grandioso do gênero, e perpetuou-se no seio dos cristãos, onde, por sua vez, houve poetas e cantores.
Comparando-os, encontram-se neles — salvo os nomes e variantes de detalhe — numerosas analogias; ambos têm o fogo material por base de tormentos, como símbolo dos sofrimentos mais atrozes.
Mas coisa singular! os cristãos exageraram em muitos pontos o inferno dos pagãos.
Se estes tinham o tonel das Danaides,7 a roda de Íxion,8 o rochedo de Sísifo,9 eram estes suplícios individuais; os cristãos, ao contrário, têm para todos, sem distinção, as caldeiras ferventes cujos tampos os anjos levantam para ver as contorções dos supliciados;10 e Deus, sem piedade, ouve-lhes os gemidos por toda a eternidade.
Jamais os pagãos descreveram os habitantes dos Campos Elíseos deleitando a vista nos suplícios do Tártaro.1
4.Os cristãos têm, como os pagãos, o seu rei dos infernos — Satã — com a diferença, porém, de que Plutão se limitava a governar o sombrio império, que lhe coubera em partilha, sem ser mau; retinha em seus domínios os que haviam praticado o mal, porque essa era a sua missão, mas não induzia os homens ao pecado para desfrutar, tripudiar dos seus sofrimentos.
Satã, no entanto, recruta vítimas por toda parte e regozija- -se ao atormentá-las com uma legião de demônios armados de forcados a revolvê-las no fogo.
Já se tem discutido seriamente sobre a natureza desse fogo que queima, mas não consome as vítimas.
Tem-se mesmo perguntado se seria um fogo de betume.12
O inferno cristão nada cede, pois, ao inferno pagão.
5.As mesmas considerações que, entre os antigos, tinham feito localizar o reino da felicidade, fizeram circunscrever igualmente o lugar dos suplícios.
Tendo-se colocado o primeiro nas regiões superiores, era natural reservar ao segundo os lugares inferiores, isto é, o centro da Terra, para onde se acreditava servirem de entradas certas cavidades sombrias, de aspecto terrível. Os cristãos também colocaram aí, por muito tempo, a habitação dos condenados.
A este respeito, frisemos ainda outra analogia:
O inferno dos pagãos continha de um lado os Campos Elíseos e do outro o Tártaro; o Olimpo, morada dos deuses e dos homens divinizados, ficava nas regiões superiores.
Segundo a letra do Evangelho, Jesus desceu aos infernos, isto é, aos lugares baixos para deles tirar as almas dos justos que lhe aguardavam a vinda.
Os infernos não eram, portanto, um lugar unicamente de suplício: estavam, tal como para os pagãos, nos lugares baixos.
A morada dos anjos, assim como o Olimpo, era nos lugares elevados.
Colocaram-na para além do céu estelar, que se reputava limitado.
6.Esta mistura de ideias cristãs e pagãs nada tem de surpreendente.
Jesus não podia de um só golpe destruir inveteradas crenças, faltando aos homens conhecimentos necessários para conceber a infinidade do Espaço e o número infinito dos mundos; a Terra para eles era o centro do universo; não lhe conheciam a forma nem a estrutura internas; tudo se limitava ao seu ponto de vista: as noções do futuro não podiam ir além dos seus conhecimentos.
Jesus encontrava-se, pois, na impossibilidade de os iniciar no verdadeiro estado das coisas, mas não querendo, por outro lado, com sua autoridade, sancionar preconceitos, absteve-se de os retificar, deixando ao tempo essa missão.
Ele limitou-se a falar vagamente da vida bem-aventurada, dos castigos reservados aos culpados, sem referir-se jamais nos seus ensinos a castigos e suplícios corporais, que constituíram para os cristãos um artigo de fé.
Eis aí como as ideias do inferno pagão se perpetuaram até os nossos dias.
E foi preciso a difusão das modernas luzes, o desenvolvimento geral da inteligência humana para se lhe fazer justiça.
Como, porém, nada de positivo houvesse substituído as ideias recebidas, ao longo período de uma crença cega sucedeu, transitoriamente, o período de incredulidade a que vem pôr termo a Nova Revelação.
Era preciso demolir para reconstruir, visto como é mais fácil insinuar ideias justas aos que em nada creem, sentindo que algo lhes falta, do que fazê-lo aos que possuem uma ideia robusta, ainda que absurda.
7.Localizados o Céu e o inferno, as seitas cristãs foram levadas a não admitir para as almas senão duas situações extremas: a felicidade perfeita e o sofrimento absoluto.
O purgatório é apenas uma posição intermediária e passageira, ao sair da qual as almas passam, sem transição, à mansão dos justos.
Outra não pode ser a hipótese, dada a crença na sorte definitiva da alma após a morte.
Se não há mais de duas habitações, a dos eleitos e a dos condenados, não se podem admitir muitos graus em cada uma sem admitir a possibilidade de os franquear e, conseguintemente, o progresso.
Ora, se há progresso, não há sorte definitiva, e se há sorte definitiva, não há progresso.
Jesus resolveu a questão quando disse: “Há muitas moradas na casa de meu Pai.”13 (João, 14:2.)
- Nota de Allan Kardec:
Um pequeno saboiano, a quem o seu cura fazia a descrição da vida futura, perguntou-lhe se todo mundo lá comia pão branco, como em Paris
7 N.E.: As cinquenta filhas de Dânaos, Rei de Argos, que, com exceção de uma, mataram seus maridos na noite de núpcias, e foram condenadas a encher eternamente, no inferno, um tonel sem fundo.
8 N.E.: Por caluniar Zeus, Íxion foi fulminado por um raio e lançado no Tártaro, onde foi preso a uma roda em chamas e condenado a nela girar pela eternidade.
9 N.E.: Por assaltar os viajantes, Zeus condenou Sísifo ao Tártaro, e deu-lhe como castigo eterno a obrigação de empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela sempre rola de volta. 10 Nota de Allan Kardec: Sermão pregado em Montpellier em 1860.
11 Nota de Allan Kardec: “Os bem-aventurados, sem deixarem o lugar que ocupam, poderão afastar-se de certo modo em razão do seu dom de inteligência e da vista distinta, a fim de considerarem as torturas dos condenados, e, vendo-os, não somente serão insensíveis à dor, mas até ficarão repletos de alegria e renderão graças a Deus por sua própria felicidade, assistindo à inefável calamidade dos ímpios.” (São Tomás de Aquino.)
12 Nota de Allan Kardec: Sermão pregado em Paris em 1861.
(Livro: O Céu e o Inferno – O Inferno – Primeira Parte – Capítulo IV)
Grande beijo no coração
Bell-Taróloga