Vive o homem incessantemente em busca da felicidade, que também incessantemente lhe foge, porque felicidade sem mescla não se encontra na Terra.

Entretanto, mau grado às vicissitudes que formam o cortejo inevitável da vida terrena, poderia ele, pelo menos, gozar de relativa felicidade, se não a procurasse nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, isto é, nos gozos materiais em vez de a procurar nos gozos da alma, que são um prelibar dos gozos celestes, imperecíveis; em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo, ele se mostra ávido de tudo o que o agitará e turbará, e, coisa singular!
O homem, como que de intento, cria para si tormentos que está nas suas mãos evitar.
Haverá maiores do que os que derivam da inveja e do ciúme?
Para o invejoso e o ciumento, não há repouso; estão perpetuamente febricitantes.
O que não têm e os outros possuem lhes causa insônias.
Dão-lhes vertigem os êxitos de seus rivais; toda a emulação, para eles, se resume em eclipsar os que lhes estão próximos, toda a alegria em excitar, nos que se lhes assemelham pela insensatez, a raiva do ciúme que os devora.
Pobres insensatos, com efeito, que não imaginam sequer que, amanhã talvez, terão de largar todas essas frioleiras cuja cobiça lhes envenena a vida!
Não é a eles, decerto, que se aplicam estas palavras:
“Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados”, visto que as suas preocupações não são aquelas que têm no céu as compensações merecidas.
Que de tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é.
Esse é sempre rico, porquanto, se olha para baixo de si e não para, cima, vê sempre criaturas que têm menos do que ele.
E calmo, porque não cria para si necessidades quiméricas.
E não será uma felicidade a calma, em meio das tempestades da vida?
– Fénelon. (Lião, 1860.)
Questões 924 a 927 –
A Felicidade e Infelicidade Relativas na Terra
Respostas dos guias espirituais para Allan Kardec no Livro dos Espíritos.
Há males que independem da maneira de proceder do homem e que atingem mesmo os mais justos.
Nenhum meio terá ele de os evitar?
“Deve resignar-se e sofrê-los sem murmurar, se quer progredir.
Sempre, porém, lhe é dado haurir consolação na própria consciência, que lhe proporciona a esperança de melhor futuro, se fizer o que é preciso para obtê-lo.”
Por que favorece Deus, com os dons da riqueza, a certos homens que não parecem tê-las merecido?
“Isso significa um favor aos olhos dos que apenas veem o presente.
Mas, ficai sabendo, a riqueza é, de ordinário, a prova mais perigosa do que a miséria.”
(veja as questões 814 e seguintes)
Criando novas necessidades, a civilização não constitui uma fonte de novas aflições?
“Os males deste mundo estão na razão das necessidades factícias que vos criais.
A muitos desenganos se poupa nesta vida aquele que sabe restringir seus desejos e olha sem inveja para o que esteja acima de si.
O que menos necessidades tem, esse o mais rico.
“Invejais os gozos dos que vos parecem os felizes do mundo.
Sabeis, porventura, o que lhes está reservado?
Se os seus gozos são todos pessoais, pertencem eles ao número dos egoístas: o reverso então virá.
Deveis, de preferência, lastimá-los.
Deus algumas vezes permite que o mau prospere, mas a sua felicidade não é de causar inveja, porque com lágrimas amargas a pagará.
Quando um justo é infeliz, isso representa uma prova que lhe será levada em conta, se a suportar com coragem.
Lembrai-vos destas palavras de Jesus:
– Bem-aventurados os que sofrem, pois que serão consolados.”
Não há dúvida que, à felicidade, o supérfluo não é forçosamente indispensável, porém o mesmo não se dá com o necessário.
Ora, não será real a infelicidade daqueles a quem falta o necessário?
“Verdadeiramente infeliz o homem só o é quando sofre a falta do necessário à vida e à saúde do corpo.
Todavia, pode acontecer que essa privação seja de sua culpa.
Então, só tem que se queixar de si mesmo.
Se for ocasionada por outrem, a responsabilidade recairá sobre aquele que lhe houver dado causa.”
Allan Kardec – O Evangelho Segundo o Espiritismo. FEB. Capítulo 5. Item 23. Allan Kardec – O Livro dos Espíritos. 76.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1995)
Grande beijo no coração
Bell-Taróloga