Um dos conhecimentos mais importantes para todos aqueles que buscam a vida espiritual é aquele que fala sobre o prazer e a dor.

A vida de todos os seres humanos sempre oscila entre momentos de prazer e momentos de dor.
Vamos entender melhor esse princípio retirando exemplos tanto da sabedoria oriental quanto da filosofia ocidental.

Há uma fábula budista que conta a seguinte estória: uma jovem muito bela e rica bateu a porta de um homem.
“Sou a deusa da fortuna”, disse ela.
O homem a acolheu rápida e calorosamente em sua residência, como fazem quase todos os homens em relação à fortuna, à beleza e ao prazer.

Logo depois, uma senhora feia e pobre bateu a sua porta dizendo: “Sou a deusa do infortúnio e da pobreza”.
O homem, ao contrário, não queria recebe-la de jeito nenhum e a enxotou de sua casa.
No entanto, aconteceu algo muito importante nesse momento: logo depois que ele repeliu a deusa do infortúnio, a deusa da riqueza imediatamente desapareceu de sua casa.

Buda conclui essa fábula dizendo o seguinte: “O nascimento acompanha a morte.
A fortuna acompanha o infortúnio.
As coisas más seguem as coisas boas.
Os tolos temem o infortúnio e lutam para conquistar a felicidade, mas aqueles que buscam a iluminação precisam transcender a ambos e estar livres de todos os apegos mundanos”.

Essa fábula nos mostra algo de fundamental importância em nossas vidas, uma lei natural que diz: “O prazer e a dor são inseparáveis.
Não é possível ficar com um sem necessariamente trazer o outro.”
Não podemos desejar a riqueza sem que a pobreza bata em nossa porta depois.

Não se pode separar a vida em duas partes, ficando com o prazer e expurgando a dor de nossa realidade, pois um não existe sem o outro.
A riqueza não pode ser separada da pobreza, nem o prazer pode existir sem a presença da dor.
Ambos os opostos sempre convivem.

Um segue-se ao outro e um traz a presença do outro.
Quando o prazer se estabelece, a dor é a consequência natural que virá em nosso futuro.
A fortuna de um momento sempre trará o infortúnio no momento seguinte.

Não importa quanto tempo demore…
Os opostos mudam de lado: o prazer se converte em dor e a dor em prazer.
Como diz uma conhecida lei da sabedoria oriental: os opostos são sempre inseparáveis.

A tradição oriental nos ensina esse importante princípio da vida.
A filosofia ocidental também diz algo semelhante. Sócrates, que foi um dos maiores senão o maior expoente da filosofia ocidental de todos os tempos, defende a mesma ideia no clássico grego “Fédon” escrito por Platão há 2500 anos.

O filósofo foi preso e acorrentado antes de sua morte.
Ele diz o seguinte: “Que coisa desconcertante parece ser, amigos, aquilo que os homens chamam prazer!
Que relação maravilhosa há entre a sua natureza e o que se julga ser seu contrário, a dor!

Os dois se recusam a se encontrar lado a lado, simultaneamente, no homem; mas se seguirmos um deles e o apanharmos, somos sempre obrigados, de um certo modo, a apanhar também o outro, como se a sua dupla natureza estivesse ligada a uma única cabeça!
Eis por que onde se apresenta um, aparece em seguida o outro.”

Nessa passagem Sócrates descreve as dificuldades que viveu no cárcere, antes do seu julgamento em Atenas.
O filósofo conta que as correntes estavam apertando forte sua perna, mas no momento em que alguém as soltou, ele sentiu uma grande alívio, passando da dor do aperto ao prazer, ou ao alívio daquela sensação incômoda.

Após esse episódio, Sócrates faz uma reflexão e chega a conclusão de que prazer e dor andam sempre juntos.
Sócrates cita Esopo, o grande criador de fábulas da antiguidade e comenta que: “Parece-me que Esopo, se tivesse pensado nisso, teria composto lutas entre eles, mas não o conseguindo, ligou suas duas cabeças.”

Sócrates cria uma imagem que representa o prazer e a dor como se fossem um homem com suas cabeças.
Ambos existem dentro de um mesmo organismo e não poderiam jamais ser separados, pois como disse o filósofo “onde se apresenta um, aparece em seguida o outro”.

Sócrates fez uma rápida reflexão a esse respeito e não chegou a aprofunda-la em seu discurso.
No entanto, deixa claro um antigo e abrangente princípio da filosofia oriental: os opostos não vivem um sem o outro, estão eternamente ligados, e quando um termina, o outro imediatamente começa.

Qualquer pessoa pode facilmente constatar esse princípio atuando em sua vida.
Imagine um homem que sente muito prazer indo a bares, boates e casas noturnas.
Um dia, algo acontece que ele não pode mais ir aonde ele gosta.

No momento em que ele não vai mais desfrutar de seus momentos de prazer, a dor de inicia, sempre desejando estar onde ele quer estar e não pode mais estar.
Quanto maior o prazer de estar fazendo o que ele gostava, maior será a dor que a falta desses momentos irá provocar.
A quantidade de prazer quase sempre é proporcional a dor que vem em seguida quando o prazer lhe é negado.

Em outro exemplo, uma mulher adora chocolate.
Come o chocolate todos os dias e isso lhe dá muito prazer.
Mas num dado momento, ela resolve fazer uma dieta e não pode mais comer o chocolate.
Nos dias seguintes ela começa a sofrer pela ausência do seu objeto de prazer e isso lhe gera uma sensação de falta e ansiedade, com seu desejo não satisfeito.

Quanto mais acostumada estava a comer o chocolate, maior será sua dor pela falta dele.
Observe que o prazer de um momento sempre traz a dor da privação do prazer do momento seguinte.
Como disse Sócrates: “quando um termina, o outro imediatamente começa”.

Ou como disse a fábula budista: a deusa da fortuna não pode existir isoladamente.
Quando uma desaparece, a outra desaparece e quando uma vem, a outra sempre vem junto.
Imagine que você tem algo de que gosta muito, qualquer coisa que seja. Você desfruta de bons momentos com aquilo. Num dado momento, você perde essa coisa de que tanto gostava.

Essa perda vai doer, vai te fazer sofrer, vai te dar uma sensação de ausência, de falta, de dor, de agonia, de pesar.
O gosto anterior trará como consequência o desgosto posterior, sempre de forma inexorável.
O prazer que algo lhe confere se transforma sempre na dor do momento seguinte, momento esse que você não dispõe mais daquilo que gostava e te dava prazer.

Aquele que adora sua cidade, que sente-se muito bem nela, pode sofrer muito quando sua cidade for destruída, ou quando ele tiver que mudar de lá. Nesse sentido, a dor sempre será uma constante em nossa vida, posto que, em nosso mundo, irremediavelmente, todas as coisas mudam, tudo se transforma e tudo acaba. O prazer que você tem hoje será sempre a dor de amanhã.

Por esse motivo, sempre vamos perder algo que gostamos e sempre o prazer de agora trará forçosamente a dor futura. Procure observar isso em sua vida… e você verá, caro leitor, que não adianta querer obter prazer em relação a algo sem que posteriormente lhe venha a dor. É inútil tentar expurgar a dor e ficar apenas com o prazer. Isso é impossível, nunca vai acontecer… Um sempre se seguirá ao outro… e o seu prazer de agora trará inevitavelmente a dor do momento seguinte. Um ajusta o outro, um equilibra o outro, um é a medida do outro… o prazer está sempre ligado a dor e vice versa. Onde existe um, fatalmente existirá também o outro.

E como se libertar desse vai e vem dos opostos? As tradições orientais têm uma resposta milenar a essa questão.
A resposta é simples: sempre que você sentir prazer, não se apegue a ele.
E sempre que vier a dor que é consequência do prazer, não se importe com ela. A palavra chave desse princípio, como revelou Krishna, é a equanimidade.

Ser equânime é ser indiferente as oscilações da vida.
O vai e vem dos opostos passa por nós, mas não nos afeta, não nos toma, não rouba nossa alma aprisionando-a tanto ao prazer quanto a dor.

Aquele que consegue a felicidade nesse mundo é o homem equânime, ou seja, aquele que consegue ter o mesmo ânimo de vida tanto num oposto quanto no outro.
Ele se equilibra entre os dois extremos e esse equilíbrio interior lhe permite a libertação da roda dos nascimentos e mortes.

(Autor: Hugo Lapa)

Grande beijo no coração
Bell-Taróloga