
Quem já não sentiu vergonha de si mesmo?
Uma sensação de ter sido flagrado fazendo algo que não é aceitável. Secretamente, sabemos que falhamos onde não imaginávamos errar.
Em nosso interior, escutamos uma voz que nos diz ser inadmissível agirmos assim.
A reparação do erro nos ajuda a aliviar a vergonha.
Mas se nos deixarmos levar por este sentimento de profunda inadequação, vamos correr o risco de nos distanciarmos de nós mesmos.
Quando a vergonha surge, queremos fugir e nos esconder.
No entanto, será justamente ao encará-la que ela poderá desaparecer!
Buscamos nos esconder porque estamos tentando nos proteger de uma eventual punição.
Quanto maior o medo da punição, maior o sentimento de vergonha.
Se continuarmos fugindo e não encararmos a vergonha, passaremos, sem nos dar conta, a evitar toda situação que nos remeta a sentir vergonha.
Como resultado, aos poucos, nos sentiremos tímidos e frágeis sem saber o porquê.
A vergonha de si mesmo é, portanto, um sintoma de não-aceitação de uma auto-imagem.
Sofremos de um contínuo sentimento de não sermos ainda quem deveríamos ser.
Em outras palavras, sentiremos vergonha enquanto não desenvolvermos a habilidade de reconhecer e aceitar, com compaixão, nossos próprios limites.
Para não ficarmos presos à cobrança interior, podemos nos conscientizar de que a atitude de identificar nossas falhas faz parte, simplesmente, de qualquer processo de crescimento interior.
No entanto, se não estivermos comprometidos com a decisão de evoluir internamente, reconheceremos nossas falhas como uma sentença de condenação: Se não sou capaz, jamais serei.
O psicoterapeuta budista Mark Epstein escreve, em seu livro Continuar a Ser (Ed. Gryphus): O grosso da minha função em psicoterapia consiste em trabalhar com esse sentimento de ‘Eu não sou’ de uma forma ou de outra.
É o principal bloqueio psicológico a uma realização espiritual.
Enquanto não reconhecermos nossos limites, estaremos tentando nos enganar.
Perceber nossos erros e limitações é, portanto, um modo de parar de nos enganar.
Por isso, na próxima vez em que você sentir vergonha, procure parar para escutar o que você se diz enquanto se sente mal.
Serão frases indicadoras das áreas onde temos receio de perder a admiração por nós mesmos.
Quem já não se decepcionou por ter se colocado numa determinada situação que o fez se sentir frágil e indefeso?
A vergonha é uma tentativa de não olharmos para nossas fragilidades, pois em nosso sistema de crença interior, acreditamos ser incapazes de lidar com elas.
Quando nos sentimos insuficientes, sentimos vergonha.
O sentimento de não-ser quem deveria ser surge, neste momento, de forma maciça.
Todos nós carregamos nosso ideal de Ego: uma esperança de autogratificação por meio da auto-admiração.
Quem esperamos ser para, então, sermos felizes?
Isto é, o que reforça nosso sentimento interior de potência e auto-realização?
Nossa capacidade de auto-admiração nos ajuda a encontrar inspiração e força para seguir adiante em nossas realizações.
É importante, portanto, nutrirmos continuamente a admiração por nossas capacidades.
Mas, se ficarmos presos à necessidade de apenas nos auto-admirarmos, estaremos nos condenando a sentir vergonha a todo o momento!
Aceitar a não-aceitação de si mesmo é o antídoto da vergonha.
Portanto, o melhor é começar por aceitar o ponto onde nos encontramos.
A monja budista Pema Chödrön, em seu livro Comece onde você está (Ed. Sextante), sugere a prática de meditação Tonglen como método para nos ajudar a entrar em contato com a abertura e suavidade do próprio coração.
Nesta prática, iremos inspirar uma fumaça negra, e convidar para nosso interior todo e qualquer sentimento de vergonha, o nosso próprio e dos outros, e, ao expirar, emanaremos luz e calor para onde quer que haja este mesmo sentimento de vergonha.
Pema Chödrön escreve: Protegemos nosso coração com uma armadura tecida com o hábito muito arraigado de afastar a dor e agarrar o prazer.
Quando começamos a inspirar a dor, em vez de afastá-la, passamos também a abrir nosso coração ao que é indesejável. Nosso relacionamento direto com as áreas de nossa vida de que não gostamos ventila o ambiente abafado do ego.
Da mesma maneira, quando abrirmos nosso coração trancado e deixamos sair o que é agradável, irradiando para o exterior e compartilhando, também reverteremos completamente a lógica do ego, o que significa reverter a lógica do sofrimento.
Quando adquirirmos uma maior aceitação de nossa auto-imagem iremos aceitar melhor também os limites alheios.
Em outro trecho do mesmo livro, Pema Chödrön escreve: Se estivermos dispostos a deixar de lado o enredo pessoal, sentiremos exatamente o que os outros seres humanos sentem. Todos nós compartilhamos os mesmos sentimentos.
Nesse sentido, se fizermos a prática de forma pessoal e autêntica, ela despertará nossa sensação de afinidade com todos os seres humanos.
Numa palestra em Milão, o mestre budista Lama Michel Rimpoche nos levou fazer a seguinte pergunta: O que de fato me fez sofrer nestes últimos anos?.
Em seguida disse: Não precisamos ser apenas o resultado de nossos hábitos, podemos ser algo a mais, sair do automatismo e ser livres deles.
Esse é o verdadeiro modo de ser generoso consigo mesmo, oferecer-se um novo olhar.
(Desconheço a Autoria)